Ago

05

Nesta segunda (2) , o jornal carioca O Globo publicou uma matéria sobre o novo cd de Zeca, que vai se chamar “VIDA DA MINHA VIDA”.

Leia aqui:

Zeca Pagodinho dedica novo CD à madrinha Beth Carvalho
por João Pimentel

Na mesa da sala, um monte de fotos históricas ao lado de João Nogueira, Roberto Ribeiro, Chico Buarque, Xangô da Mangueira, Nelson Cavaquinho, Cartola e outros. No quarto, cavaco, pandeiro, tantan, violão. Na geladeira, cerveja e petiscos para receber a turma do samba que bate ponto em seu apartamento, em São Conrado, para visitas quase diárias. Beth Carvalho deu um susto em todos ao cancelar, em meados do ano passado, o show que faria na virada do ano. Com problemas na coluna, teve que passar por uma cirurgia e desde então se recupera lentamente, em ritmo inversamente proporcional à sua vontade de voltar aos palcos. Mas ela não foi esquecida pelo afilhado mais famoso: Zeca Pagodinho dedica à madrinha seu próximo disco, “Vida da minha vida”, que será lançado no fim de setembro.

– Tudo o que eu tenho foi a minha madrinha Beth que me proporcionou. Ela me apresentou a esse mundo cão que só tem orgia e eu adoro! – diz Zeca, que visitou a cantora na terça-feira passada.

Ele conta que tinha a intenção de gravar com Beth Carvalho uma faixa em seu novo trabalho, que conta com participações de Alcione e Dona Ivone Lara, mas que foi surpreendido pela operação.

– Jura? Ai, que pena… Quando foi a última vez em que gravamos juntos? Acho que foi no meu disco com músicas do Nelson Cavaquinho – lembra Beth.

A música foi “Dona Carola”, no disco “Nome sagrado”, mas nenhum dos dois se lembrava exatamente da faixa:

– Sempre que eu vou fazer uma participação em um disco de alguém, pedem para eu gravar justamente a letra que eu não sei cantar direito – reclama Zeca.

Os dois se conheceram em 1984, na quadra do Cacique de Ramos. Beth já era uma estrela e foi conhecer o samba que acontecia no espaço da Rua Uranos, na Zona Norte carioca, pelas mãos do amigo Alcir Portela. E ali, em meio à turma que promoveu a última revolução do samba com instrumentos como o repique de mão, o banjo e o tantan, encontrou um rapaz franzino que arranhava um cavaco, carregava suas coisas em uma sacola das Casas Sendas e cantava sambas geniais:

– Quando o Zeca me cantou “Camarão que dorme a onda leva”, eu disse na hora que iria gravar. Só o título do samba já era, para mim, sensacional. Então fiz questão de levá-lo para cantar comigo. Depois rolou o clipe do “Fantástico” que gravamos na Feira de São Cristóvão. Tinha os músicos do programa, mas eu, sempre que podia, levava a minha turma. Foi assim também com a Velha Guarda da Portela.

– O dia em que nos conhecemos foi também o primeiro em que o Luiz Carlos da Vila pisou no Cacique de Ramos. Era complicado, porque a roda era fechada. Na mesa só ficavam os caciques mesmo, a turma da casa. Lembro que o Arlindo (Cruz) falava: “Lá é fogo.” A gente chegava na roda e estava o Almir Guineto botando para quebrar no banjo, o Ubirany no repique, o Bira Presidente. Era um ambiente de muito respeito. Tinha a turma que ficava em volta da roda fazendo fila para cantar, esperando a vez… Rolava uma hierarquia mesmo – explica Zeca.

A madrinha Beth pergunta a Zeca por onde ele tem andado, com a curiosidade que sempre teve de saber onde estão os bons pagodes da cidade. A resposta do afilhado é meio desanimada.

– Tenho ficado em casa, minha mulher (Mônica) me contaminou com a doença do sono. E, também, o nosso samba era outro, aquelas batucadas, os caras marcando o ritmo no tamanco. Todo mundo trabalhava, eu, o Ubirany, o Arlindo Cruz, o Marquinho China. Ninguém imaginava ganhar dinheiro com samba, éramos apaixonados por aquilo mesmo. Hoje é diferente, a coisa está profissional demais – reclama.

– E você trabalhava com o quê? – pergunta Beth.

– Nessa época eu trabalhava no Serpros, servia café lá. Tinha o Walter Neguinho, que batucava na bandeja, então só dava a gente na cozinha. A gente era querido, e isso ajudava. Dávamos o nosso jeito, já que precisávamos não trabalhar muito para ir ao samba sem hora para voltar – responde Zeca.

Zeca diz que não é apenas o samba que não tem agradado. Ele confessa que está com medo de sair de madrugada:

– Reclamei tanto que fiquei igual à minha mãe. Tenho medo de bala perdida e tudo.

Zeca lembra que, já famoso, foi fazer uma participação em um show de Beth em São Paulo quando foi barrado no hotel Maksoud Plaza:

– Eu já era conhecido, já tinha até roupa. Fui com as duas pernas quebradas, parecendo uma múmia. E o pior: sujo, porque ia de um lado para o outro, entrava em botequim com aquele gesso. Quando cheguei na porta, sem bagagem, mas com minhas sacolas de plástico, não quiseram me dar um uísque. Quando eu meti a mão no bolso e tirei aquelas notas amassadas, me reconheceram. Aí eu mudei de hotel, fui para o Jandaia, onde ficava a turma do samba e onde o couro comia. Até hoje prefiro ficar em um lugar assim, que tenha um botequim por perto. O Maksoud não tem nenhum mendigo na frente.

Ele já era famoso, mas não o suficiente para encarar Beth Carvalho no palco. Resultado: passou mal na hora de cantar.

– Quando chegou a hora, me deu uma dor de barriga. Já tinham me anunciado, e eu disse que não dava. Minha música era a quarta, mas só entrei no final do show – lembra Zeca.

Ele diz que a única estripulia a que se permite atualmente é beber no trailer que fica em frente à sua casa, na Barra:

– Fiquei muito caseiro, prefiro chamar todo mundo lá para casa. O samba pode estar cantando que eu vou para o meu quarto dar uma cochilada e volto mais tarde, bonitinho. Às vezes, nem participo. Em Xerém, tem dias em que eu preparo tudo, mato cabrito, galinha, aquele festival de colesterol, e vou dormir. Mas o trailer é complicado. Quando chego de madrugada, tento entrar no prédio, mas tem um elástico que me pega no portão. Então eu mando descer comida lá de cima, bebida: “Vamos beber que amanhã a gente pode morrer.”

Beth diz que não vê a hora de voltar para as rodas de samba. Zeca resmunga que nem ao Cacique tem ido:

– Gostava de ir lá, mas hoje em dia não encontro ninguém, não é o samba que a gente cantava. Sou saudosista, gostava de encontrar o Geraldo Babão, o Tio Hélio. Eu chegava lá e, mesmo com 20 cavaquinhos, 30 pandeiros, a gente escutava o que se cantava. Hoje, até apareço para ver a garotada cantando, mas o microfone quebrou o Cacique.

Se ainda não pode levar sua voz e sua presença às rodas da Tia Doca, do Candongueiro, de Arlindo Cruz e outras, Beth aproveita o tempo livre para organizar seu rico acervo de fotos e fitas cassete. Animada, chamou o produtor e grande amigo Rildo Hora para ajudar a montar um repertório para um futuro disco que já tem até nome: “Brasileiríssima”.

– Não sei quando isso irá sair, porque teríamos que lançar até meados de setembro, já que depois vem o Natal e as gravadoras entram de férias – explica ela, que será homenageada no desfile da sua Mangueira, em 2011, no enredo “O filho fiel, sempre Mangueira”, sobre Nelson Cavaquinho.

A cantora conta que em seu processo de escolha de repertório sempre privilegiou as inéditas para incentivar os compositores a produzir. Isso desde os tempos em que gravava Nelson e Cartola:

– Achamos coisas maravilhosas, inéditas, algumas quase sem som. Todos os dias, durante esses seis meses, trabalhei nisso. Então me empolguei e entrei de cabeça na história do disco. Tem coisas do Arlindo (Cruz), do Almir (Guineto), um monte de músicas mandadas pela turma durante anos. São mais de duas mil. Tem muita coisa boa que eu não gravei antes porque não havia espaço nos meus discos. Sempre fiz questão de novidades – diz uma animada Beth, que conta que em quatro meses deverá estar pronta para fazer um show.

– A gente tem mesmo essa preocupação de gravar quem precisa e é bom. E isso é um sofrimento, porque a gente fica na torcida para o parceiro trazer um samba bom, o que nem sempre acontece. Imagina como é chato cortar um amigo do disco – completa Zeca, que regravou “Encanto da paisagem”, de Nelson Sargento, e “Poxa”, o grande sucesso de Gilson de Souza dos anos 70, no novo disco.